Estavamos hoje a atravessar a Rua Octaviano Augusto, na Parede (rua que termina ou começa na Bartolomeu de Gusmão...), quando nos chegou da noite um cheiro breve a lareira. Foi a primeira vez este ano! Há sempre uma (e só uma) noite no ano em que cheira a lareira pela a primeira vez. Para mim é sempre a primeira noite de muitas noites já vividas. É assim todos os anos: num de-repente-fim-de-tarde distraido, sacode-me a impressão intensa de uma casa em que a vida vive, sorrio e percebo que algo em mim ansiava por este pequeno impulso para ser feliz com o inverno. Claro que a lareira é a melhor memória de quase todos os invernos da minha vida. Claro que a lareira quer dizer casa, calor, poesia, pés descalços, silêncio vivo e sonhos-à-jamais-finir. Claro que o lume diz cumplicidade, partilha, compleição, abandono. É isso o lume: um lugar onde o olhar poisa e já não deseja ir mais além. É como quando o Eugénio diz: "Uma casa que fosse um areal deserto. Que nem casa fosse. Só um lugar onde o lume foi aceso e à sua roda se sentou a alegria e aqueceu as mãos e (...)" É isso... Acho que é só isso. Mais à frente, já quase em casa, lembrei-me de outra coisa: uma das mais recentes memórias de fogo. Faz hoje 11 meses e foi a primeira de muitas "pequenas partes de fogo".
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