Ia e vinha e a cada coisa perguntava que nome tinha

Foi na passada quinta-feira que fui parar - bastante atrasada e quase sem querer - ao seminário do professor (?) Joaquim Manuel Magalhães. O tema da semana era... Sophia! Surpresa: houve momentos em que acreditei escutar Sophia pela primeira vez. Aqui ficam as memórias escritas de alguns poemas que hei-de agora sempre recordar no timbre "atento" da sua voz:
 
Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.

Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.

Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.

*
Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo
Mal de te amar neste lugar de imperfeição
Onde tudo nos quebra e emudece
Onde tudo nos mente e nos separa

*
Lamentação do Duque de Gândia pela morte de Isabel de Portugal

Nunca mais a tua face será pura limpa e viva
Nem o teu andar como onda fugitiva
Se poderá nos passos do tempo tecer.
E nunca mais darei ao tempo a minha vida.

Nunca mais servirei senhor que possa morrer.
A luz da tarde mostra-me os destroços
Do teu ser. Em breve a podridão
Beberá os teus olhos e os teus ossos
Tomando a tua mão na sua mão.

Nunca mais amarei quem não possa viver
Sempre,
Porque eu amei como se fossem eternos
A glória, a luz e o brilho do teu ser.
Amei-te em verdade e transparência
E nem sequer me resta a tua ausência.
És um rosto de nojo e negação
E eu fecho os olhos para não te ver.

Nunca mais servirei senhor que possa morrer.

(Sophia de Mello Breyner Andresen)

E por falar em Agualusa, este post é para quem talvez nunca aqui venha. Uma outra amante de passados, uma outra amante de Sophia. Uma outra Amante...

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