Aos malmequeres...

Um dia desta semana, iamos nós a caminho da escolinha e passámos por aqueles malmequeres que eu costumo oferecer ao Fausto e que ele costuma comer. Estavam com um ar tão murcho que pensei: coitados, estão aqui perdidos num sítio que não é o deles, no meio desta confusão de passos e mesmo assim ainda tentam um sorriso, um "bom dia". A seguir pensei: e o mais certo é que das centenas de pessoas que passam por eles todos os dias nenhuma repare sequer na sua presença. Eu cresci a acreditar que as flores, como as pessoas, ficam mais bonitas quando gostamos delas, quando lhes fazemos um carinho, quando lhes dizemos uma palavra bonita. E foi com esse cuidado diário, mas sobretudo por ter acreditado que isso era possível que consegui um dia ressuscitar uma plantinha morta, que a minha avó tinha na rua já à espera de ir para o lixo. Tinha uns 6 ou 7 anos e aquela foi durante muitos anos a minha planta favorita, não por ser a mais bonita, mas por ser a mais sensível, aquela que o amor fez renascer. Nem tinha eu ainda noção da importante lição que aquela plantinha me estava a ensinar. Muitos anos mais tarde, fui esteticamente iniciada a esse mesmo princípio da regeneração pelo amor, ao confrontar-me com a parábola que inicia e termina o último filme do Tarkovsky, Sacrifício (para os curiosos, aqui fica uma das sequências, aquela com que termina o filme), e não pude deixar de sorrir quando reconheci exactamente o modesto exemplo dessa minha plantinha. Num último olhar aos malmequeres pensei: pois, porque eles ali estão ninguém repara sequer que existem, mas se ali não estivessem haveria logo quem se queixasse que a vila é muito árida, que não há "espaços verdes" para as crianças brincarem e para os cãezinhos passearem... Nesse mesmo dia à tardinha, quando regressámos da escola, já lá não estavam os malmequeres. Vieram os senhores da câmara e cortaram-nos todos (sobraram só os três que estão na nossa cozinha). Provavelmente estavam demasiado murchos para encherem o olho àqueles que nem os vêem. Estou a aprender uma valsa do Grieg para oferecer aos malmequeres (o título original do filme do Tarkovsky é Offret, o que significa oferta ou dádiva em sueco e também em norueguês), porque a mim e ao Fausto eles todos os dias se ofereceram em sorrisos. Se um dia aprendermos o Spiegel im Spiegel do Arvo Pärt oferecemos-lhes também...

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